Espécie
Amêijoa da Ria Formosa
Marisco
Nas águas tranquilas e labirínticas da Ria Formosa esconde-se um dos mais preciosos tesouros da gastronomia portuguesa. A Amêijoa-boa, nascida e criada neste berço de biodiversidade, é mais do que um simples marisco; é o sabor autêntico de um ecossistema único, um concentrado de maré e sol que chega à mesa pelas mãos sábias dos mariscadores. A sua textura firme e o seu sabor fazem dela a rainha indiscutível dos petiscos e dos dias de verão à beira-mar.
A Amêijoa-boa (Ruditapes decussatus) é um molusco bivalve que encontra na Ria Formosa o seu habitat de eleição. Este sistema lagunar, protegido e de águas pouco profundas, oferece as condições perfeitas de temperatura, salinidade e alimento para que esta espécie cresça e desenvolva o seu sabor característico. Enterrada nos fundos de areia e lodo, a amêijoa vive filtrando a água, alimentando-se de microalgas que lhe conferem um perfil nutricional riquíssimo e um paladar limpo e iodado.
É a principal estrela da aquicultura em Portugal, uma atividade que na Ria Formosa é feita de forma extensiva e sustentável. As “sementes” (amêijoas juvenis) são cuidadosamente semeadas nos viveiros, autênticos jardins subaquáticos, onde crescem lentamente ao longo de dois anos até atingirem o tamanho ideal para a colheita. Este processo paciente e em harmonia com a natureza é o que garante a sua qualidade superior e a distingue de outras amêijoas.
A concha da amêijoa-boa é a sua assinatura. De formato oval, apresenta uma coloração que pode ir do creme ao acinzentado, com um padrão de estrias radiais e linhas concêntricas que se cruzam, formando uma delicada rede ou quadrícula. É esta textura reticulada que a ajuda a agarrar-se ao substrato e que a torna facilmente identificável.
A sua apanha é uma arte ancestral, passada de geração em geração. Os mariscadores, com a água pela cintura e munidos de uma faca própria, percorrem os viveiros na maré vaza, revolvendo a areia com mestria para encontrar e colher, uma a uma, as amêijoas que já atingiram o tamanho certo. Este método manual e seletivo garante não só a qualidade do produto, mas também a preservação dos bancos de areia e do ecossistema.
Nutricionalmente, a amêijoa é um superalimento. Com um teor de gordura praticamente nulo, é extraordinariamente rica em proteínas de alto valor biológico, vitaminas (como a B12) e minerais. É também uma excelente fonte de ácidos gordos ómega-3, essenciais para a saúde cardiovascular.
Falar de amêijoa em Portugal é falar de “Amêijoas à Bulhão Pato”. Este prato, que é um hino à simplicidade e ao sabor, é a forma mais emblemática de as saborear. A receita é um ritual: um refogado rápido em azeite e alho, a frescura dos coentros, o toque do vinho branco e, no final, o sumo de limão a realçar todo o conjunto. O segredo está em não as cozinhar demasiado, apenas o tempo suficiente para que abram e libertem o seu suco salgado, que se mistura com o molho para criar uma iguaria de comer e chorar por mais, de preferência com um bom pão para ensopar.
Mas a sua versatilidade vai muito além. Fica perfeita numa cataplana algarvia, enriquece um arroz de marisco, dá alma a um prato de esparguete ou brilha numa feijoada de búzios. Seja qual for a receita, a regra é sempre a mesma: tratar o produto com respeito e deixar que o seu sabor a mar seja o protagonista.
